Je suis Saint Esprit – Je suis sain d'esprit, uma história sobre Van Gogh e Gauguin

Eu, como estudante de artes visuais, também tive um caso bem sério com Vincent Van Gogh. Passei incontáveis horas da minha vida lendo suas cartas, consumindo toda a mídia possível (sim, eu gosto muito do episódio de Doctor Who) e aprendi a pintar recriando suas pinturas, onde os traços rápidos combinavam perfeitamente com a minha ansiedade e imaturidade de teoria das cores. Muito do que sei hoje sobre pintura a óleo veio da observação maníaca das obras do Van Gogh quando eu era mais nova.

Em especial, sempre pensei muito numa frase que é mencionada no livro Cartas a Theo e que também aparece no filme The Yellow House de 2007:

“Je suis Saint Esprit – Je suis sain d'esprit”

Essa frase teria sido escrita por Vincent na parede do seu quarto, na Casa Amarela, durante uma crise e pode ser traduzida para o português em algo como: "Eu sou o Espírito Santo, eu sou são de espírito" ou "eu sou lúcido de espírito".

Há um tempo atrás, lembrei dessa frase, mas não recordava se esprit era escrito assim ou como “spirit”. Fui pesquisar na internet, totalmente despretensiosa, só querendo mesmo confirmar a ortografia correta. Eis que, o primeiro resultado me levou a um artigo intitulado: “VI. Why did Gauguin propagate Van Gogh's ‘insanity’?” e pronto, eu estava vendida.

O artigo faz parte do site Van Gogh’s Ear1 e do livro de mesmo nome (originalmente Van Gogh’s Ohr), escrito pelos historiadores Hans Kaufmann e Rita Wildegans. A obra trata especificamente do fatídico dia em que Van Gogh cortou a própria orelha, ou melhor, perdão…supostamente cortou a própria orelha.

Eu sei que, mesmo quem não entende muito de arte, conhece Van Gogh pela história da orelha ou por ser “meio maluco”. O que pouca gente sabe é o que realmente aconteceu naquele dia, como aconteceu e porque nós o reconhecemos assim. Por isso, behold: esse é o meu Império Romano.

I

Primeiro, você precisa saber que Van Gogh não teve exatamente uma vida muito bem-sucedida.

Vincent era o filho mais velho, nascido logo após a morte de um irmão natimorto que também se chamava Vincent. Antes de nascer, ele já significava a reencarnação daquilo que tinha dado errado, mas ele insistiu muito! E tentou, tentou... Tentou ser comerciante e chegou a morar em Londres, mas um amor não correspondido o fez perder a cabeça. Depois tentou ser professor e falhou de novo. A obsessão pela religião, alimentada pelo pai, que era um pastor da igreja protestante, o levou de volta para casa, onde tentou seguir a vida pastoral e, adivinhem, falhou mais uma vez…

Foi então que seu irmão mais novo, Theo, sugeriu que ele seguisse a vida artística. E assim o fez. Obviamente sem muito sucesso, mas com muito entusiasmo.

Vincent nunca conseguiu o próprio sustento e vivia se mudando de casa em casa fugindo da fome e da solidão, isso resultou numa dependência financeira em seu irmão caçula, Theodore, que se estendeu por toda sua vida. Em 1886, os irmãos chegaram a dividir um apartamento em Paris, uma fase artisticamente fundamental para Vincent. Lá, ele teve contato com artistas como Toulouse-Lautrec (que eu gosto muito), Pissarro, Seurat e Signac. Estes dois últimos o influenciaram fortemente através do pontilhismo, mesmo que ele falhasse muito em reproduzir (os pontinhos acabaram tornando-se traços, pela ansiedade que ele tinha em terminar os quadros rapidamente). Foi também nessa época que ele conheceu Paul Gauguin, figura importantíssima nessa história como veremos mais pra frente.

Apesar de extremamente produtiva (Vincent pintou mais de 200 quadros em apenas dois anos em Paris), a fase metropolitana o esgotou. Cansado da vida na capital, ele fugiu para o campo atrás de inspiração e mais saúde, dessa vez uma cidade no sul da França, Arles.

Em Arles, Van Gogh alugou uma casinha amarela na ala leste da cidade, com a ambição de transformá-la em um coletivo artístico, um lugar onde pintores pudessem viver e pintar juntos. No entanto, a Casa Amarela não era apenas um ponto de interesse para arte, era também a esperança de Vincent de ter a própria vida em suas mãos e retribuir para o irmão tudo que ele havia lhe oferecido. O plano seria convidar artistas para Arles e o que pintassem lá seria vendido por Theo em Paris (Theodore trabalhava como comerciante de arte na época):

“Se ousarmos acreditar, e eu ainda estou convencido disso, que as pinturas impressionistas se valorizarão, devemos pintar muitas delas e manter os preços altos. Mais um motivo para nos concentrarmos com calma na qualidade do trabalho e não perdermos tempo. Assim, daqui a alguns anos, prevejo a possibilidade de que o capital investido tenha retornado aos nossos bolsos, se não em dinheiro vivo, pelo menos no valor das ações.” - Vincent Van Gogh. Carta à Theo Van Gogh. Escrita em 1 de Maio de 1888 em Arles. 2

Em 25 de outubro de 1888, Van Gogh escreve a Theo sobre a pressão esmagadora que sentia para produzir e vender, na tentativa de aliviar a dívida que carregava com o irmão:

“(...) Ele (Gauguin) provavelmente produzirá muito aqui, e talvez eu também, assim espero. E assim ouso acreditar que para você o fardo será um pouco menos pesado, e ouso dizer que muito menos pesado. Eu mesmo sinto, a ponto de estar mentalmente esmagado e fisicamente exausto, a necessidade de produzir, precisamente porque, em suma, não tenho outro meio, nenhum, nenhum, de recuperar nosso investimento. (...) Chegará o dia, porém, em que as pessoas verão que as obras valem mais do que o custo da tinta e minha subsistência, muito modesta, aliás, que investimos nelas. Não tenho outro desejo nem outra preocupação com relação a dinheiro ou finanças senão, em primeiro lugar, não ter dívidas. Mas, meu caro irmão, minha dívida é tão grande que, quando eu a pagar, o que acho que conseguirei fazer, a dificuldade de produzir pinturas terá, no entanto, consumido toda a minha vida, e me parecerá que não vivi. (...) Acredito que chegará o dia em que também venderei, mas estou muito atrasado em relação a você, e embora eu gaste, não ganho nada. Esse sentimento às vezes me deixa triste.” - Vincent Van Gogh. Carta à Theo Van Gogh. Escrita em 25 de Outubro de 1888 em Arles.3

Logo, o primeiro (e único) convidado a chegar em Arles foi Paul Gauguin.

Gauguin era um pintor francês e por mais que não haja exatamente um movimento que se encaixe ao seu estilo na época, ele pode ser enquadrado como um primitivista (um movimento de vanguarda que também é conhecido como naïf) e fazia questão de se afastar do impressionismo. Quando chegou a Arles, no final de 1888, o acordo era que Theo enviaria 250 francos mensais para os dois, em troca de uma pintura por mês. Como as obras de Vincent não vendiam, o foco recaiu sobre as obras de Gauguin.

Vincent o admirava profundamente. Gauguin, por outro lado, criticava constantemente o modo como Vincent pintava a partir de referências e insistia que ele deveria trabalhar apenas a partir da memória. Além disso, era dominador e não o enxergava como um igual, o que frustrava Vincent profundamente. As discussões tornaram-se frequentes, e Vincent passou a temer que Gauguin fosse embora antes do planejado e assim uma crise se instaurou entre os dois.

Em dezembro de 1888, depois de dois meses desde a sua chegada, a história foi oficialmente contada por Paul Gauguin assim:

Segundo ele, os dois ficaram praticamente ilhados na Casa Amarela devido a uma forte chuva que atingiu Arles entre os dias 22 e 23 de dezembro. O clima era péssimo, fora e dentro da casa. Gauguin afirmou que o comportamento de Vincent já estava estranho havia algum tempo. E assim, no dia 23, ele informou que deixaria Arles, o que não foi bem recebido por Vincent.

À noite, Gauguin decide sair para dar um passeio e Van Gogh o seguiu. Duas versões são conhecidas, na primeira, descrita numa carta ao também pintor Émile Bernard, Gauguin afirma que Vincent o seguiu e apenas lhe entregou um recorte de jornal com a frase: “The murderer took flight.”:

“Gauguin retornou precipitadamente, há 4 dias, e recebi a notícia sobre Vincent no hospital. Corri para ver Gauguin, que me contou isso: No dia anterior à minha partida (pois ele tinha que deixar Arles), Vincent correu atrás de mim (ele estava saindo, era noite). Virei-me porque já fazia algum tempo que ele vinha agindo de forma estranha e eu estava desconfiado dele. Então ele me disse: ‘Você está em silêncio, mas eu também ficarei em silêncio’. Desde que eu ia deixar Arles, ele estava tão bizarro que eu não aguentava mais. Ele chegou a me perguntar: ‘Você vai embora?’ E quando eu disse ‘Sim’, ele arrancou esta frase de um jornal e colocou na minha mão: ‘O assassino fugiu’”.”- Carta de Bernard para Albert Aurier. Escrita em Janeiro de 18894

Em outra versão, narrada mais tarde em seu memoir, Gauguin afirma que Vincent tentou atacá-lo com uma navalha para o qual Gauguin só o reprimiu com um olhar:

“Eu já tinha atravessado quase toda a Praça Victor-Hugo quando ouvi atrás de mim um pequeno passo muito familiar, rápido e brusco. Virei-me no exato momento em que Vincent avançou em minha direção com uma navalha aberta na mão. Meu olhar naquele instante deve ter sido muito impactante, porque ele parou e, baixando a cabeça, correu de volta na direção da casa.” - Esse trecho está no livro 'Cartas a Theo'5 e refere-se a autobiografia de Gauguin chamada 'Avant et Aprés' de 1903.

A partir daqui a história acontece da mesma forma, em ambas versões: Gauguin passou a noite em um hotel. Vincent voltou para casa, cortou a própria orelha, embrulhou-a em um envelope, caminhou até um bordel e a entregou a uma mulher, chamada Rachel, que desmaiou imediatamente. Vincent então retornou para casa e dormiu. Só foi encontrado no dia seguinte pela polícia.

Na manhã de 24 de dezembro, o policial Joseph d’Ornano encontrou Vincent desacordado, acreditando que ele estivesse morto, dado o estado do quarto e a quantidade de sangue.

Gauguin então foi detido como suspeito de homicídio conforme ele mesmo descreveu:

“Eu não tinha a menor suspeita de nada disso quando me apresentei à porta de nossa casa e o cavalheiro com o chapéu em forma de melão [isto é, o superintendente Joseph d’Ornano] me disse abruptamente e num tom mais do que severo: ‘O que fez ao seu camarada, Monsieur?’ — ‘Não sei…’ — ‘Ah, sim… sabe muito bem… ele está morto.’ Eu jamais desejaria a ninguém um momento como aquele, e levei um bom tempo para me recompor e controlar as batidas do meu coração.” - Trecho da autobiografia 'Avant et après' de 1903.6

Mesmo não estando presente desde a noite do dia 23, Gauguin foi quem apresentou os fatos para o policial Joseph, que até então não tinha qualquer suspeita oficial de automutilação ou suicídio.

Poucas pessoas estiveram diretamente envolvidas no caso são elas: Paul Gauguin, o médico Dr. Rey e o próprio policial, Joseph. Segundo seus relatos e o jornal Le Forum Républicain, Van Gogh teria cortado a própria orelha. Vincent, no entanto, não se lembrava de nada e nunca apresentou sua versão dos fatos. Quando o Dr. Rey perguntou o que havia acontecido, ele respondeu apenas que se tratava de “uma questão puramente pessoal"7

Le Forum Républicain, 30 de Dezembro de 1888 “No último domingo, às 23h12, Vincent Van Gogh, um pintor originário da Holanda, apresentou-se na Casa da Tolerância nº 1, pediu para falar com a tabeliã Rachel e entregou-lhe… a orelha, dizendo: ‘Guarde este objeto em segurança’. Em seguida, desapareceu. Informada do ocorrido, que só poderia ter sido o de um pobre coitado com problemas mentais, a tabeliã retornou na manhã seguinte à casa do indivíduo, onde o encontrou deitado na cama, sem dar qualquer sinal de vida. O infeliz homem foi internado em caráter de urgência no hospício.”

Assim que Vincent recuperou parte da consciência e foi informado do que lhe havia acontecido (segundo os fatos expostos por Gauguin), pediu insistentemente para ver o amigo e conversar com ele imediatamente. Gauguin, no entanto, recusou-se a aparecer, apesar dos repetidos apelos de Van Gogh. Ao saber que Vincent estava vivo, Paul Gauguin foi embora e nunca mais o visitou ou o viu pessoalmente até a sua morte, em 1890.

II

É exatamente aqui que nasce a teoria dos historiadores Hans Kaufmann e Rita Wildegans.

Não existe nenhuma outra versão detalhada do ocorrido além da narrada por Gauguin. O problema é que essa narração inclui acontecimentos dos quais ele não foi testemunha, como o que acontece depois que Vincent retorna à Casa Amarela. Afinal, como Gauguin poderia saber o que se passou se ele não estava no local e não teve qualquer contato com Vincent após o episódio? Kaufmann e Wildegans afirmam que Gauguin não foi testemunha ocular da suposta automutilação e que ele próprio confirma isso em seus relatos. Tanto na carta escrita a Bernard quanto em seu memoir, Gauguin afirma ter passado a noite em um hotel e não ter ideia do que havia acontecido com Vincent até seu primeiro contato com o policial.

Para os autores Hans Kaufmann e Rita Wildegan, isso são sinais claros de que Paul Gauguin teve algum envolvimento com o acontecimento do dia 23.

É inclusive apontado por eles que Gauguin referenciou esse episódio em algumas obras, o que é o caso da pintura ICTUS, onde Gauguin apresenta uma figura que expõe a orelha esquerda (a mesma que Vincent perdeu) com um gesto da mão, enquanto a palavra ICTUS aparece atrás da cabeça.

Paul Gauguin, "Ictus" (1889); Aquarela e óleo no papel; Galeria Daniel Malingue. Paul Gauguin, "Ictus" (1889); Aquarela e óleo no papel; Galeria Daniel Malingue.

Não sou muito expert no assunto cristianismo então vou limitar meus devaneios, o que sei é que ICTUS possui muitos significados mas é principalmente reconhecido como um símbolo associado a Jesus Cristo conforme o termo grego ichthys, que significa “peixe”, onde os primeiros cristãos utilizavam seu símbolo como um código secreto de identificação entre si. Essa nomenclatura faz uma referência às conversas que Gauguin compartilhava com Vincent. Em seu caderno de esboços de Arles, o pintor chegou a escrever uma lista de palavras-chave que o remetiam à Van Gogh, entre elas: "Saul, Paul, Ictus", isso significa que as palavras na pintura + a orelha exposta podem ser uma menção direta ao ocorrido. Porém, a palavra ICTUS também pode significar: na medicina, a blow, stroke, sudden attack (golpe ou ataque repentino) ou na música, "the instant when a beat occurs" (o instante em que ocorre uma batida), e no latim "to strike with a weapon, smite, affect strongly" (golpear com uma arma, afetar fortemente) que também pode ser uma menção ao golpe que Vincent sofreu.

Por mais que hoje Van Gogh seja facilmente reconhecido como o pintor “louco”, essa imagem foi propagada quase exclusivamente por Paul Gauguin, talvez por desdém ou pela necessidade de manter coerente a narrativa criada.

Após a morte de Vincent, em 1890, Bernard, Sérusier e outros amigos organizaram uma exposição comemorativa em Paris. Gauguin tentou impedir o evento, argumentando que não era aconselhável, naquele momento, lembrar as pessoas “de Vincent e de sua loucura”. Ele voltou a reiterar a “loucura” de Vincent em diversos momentos em artigos como o no Essais d’Art Libre (Janeiro de 1894), e, pouco antes de sua morte, em suas memórias "Avant et Après" (1903).

Para sustentar essa imagem, recorreu a duas afirmações particularmente convenientes sendo elas: a de que Vincent teria escrito na parede do estúdio a frase “Je suis Saint Esprit – Je suis sain d'esprit” (lembram dela?) e, claro, ao seu relato do suposto ato de automutilação em sua autobiografia, como já vimos anteriormente.

O curioso é que Gauguin gritava aos quatro cantos que Vincent era insano, menos na frente de Theo. Em uma carta à esposa, Theo chega inclusive a afirmar que Gauguin era um dos poucos que não sustentavam essa narrativa:

“Percebo, pelas cartas que recebo de casa, que as palavras de simpatia, com exceção das de Wil, mal disfarçam a convicção de que ele sempre foi louco. Aqui, Degas, Gauguin e André são as únicas pessoas do meu círculo que não compartilham dessa visão.” - Theo van Gogh para Jo Bonger, 1º de janeiro de 1889.8

III

A pergunta que nos resta é: se Gauguin foi o responsável por cortar a orelha de Vincent, por que Van Gogh nunca falou nada sobre o ocorrido?

Muitos motivos podem ser levantados. Um deles envolve o próprio estado emocional de Vincent, que lutava há anos com sua saúde mental, com sentimentos constantes de perda e instabilidade, além da dependência financeira do irmão e da culpa por não conseguir retribuí-la. Isso fez com que, Vincent não aceitasse que aquele episódio significaria um fim, o seu desejo era que isso fosse resolvido o quanto antes. Mesmo após o ocorrido, ele ainda nutria esperanças de que Gauguin voltaria a Arles e que o projeto da Casa Amarela seria retomado. Como escreveu ao próprio Gauguin:

“Seja como for, espero que gostemos um do outro o suficiente para podermos recomeçar, se necessário, caso a penúria, infelizmente sempre presente para nós, artistas sem capital, exija tal medida.” - Vincent Van Gogh para Paul Gauguin, Carta 739, escrita em 21 de Janeiro de 18899

Isso deixa claro que Van Gogh não queria romper os laços criados com Gauguin, pois isso significaria também o fim do projeto que haviam iniciado na Casa Amarela. Além disso, Vincent sentia que também carregava parte da culpa pela escalada da noite de 23 de dezembro. Acreditava que, fosse o que fosse que tivesse acontecido, ele também era responsável.

"Sinto remorso também ao pensar nos problemas que causei, por mais involuntários que tenham sido, a Gauguin. Mas, antes dos últimos dias, eu só conseguia ver uma coisa, que ele estava trabalhando com o coração dividido entre o desejo de ir a Paris para realizar seus planos e a vida em Arles." - Vincent Van Gogh para Theo Van Gogh, 22 de Janeiro de 1889, Arles.10

Talvez, para Vincent, a volta de Gauguin a Paris não representasse apenas a perda de um amigo, mas significasse, mais uma vez, que havia falhado com o seu irmão, que novamente havia investido em seus sonhos e em seu trabalho e não teve nada em troca. É importante lembrar que Theo pagou a estadia e todos os gastos de Gauguin por dois meses em Arles, e que tudo o que tinham por lá era subsidiado pelo caçula como o aluguel, alimentação e materiais, como tintas e telas. Talvez Vincent sentisse que, ao partir tão brevemente, Gauguin não havia respeitado o acordo ou não os levava a sério o suficiente.

Por fim, uma carta beeem longa escrita por Vincent a Theo em 17 de janeiro de 1889, cerca de vinte dias após o ocorrido, ajuda a iluminar o ponto de vista de Van Gogh sobre a situação e sua relação com Gauguin:

“Felizmente, Gauguin, eu e outros pintores ainda não estamos armados com metralhadoras e outras armas de guerra muito nocivas. Eu, por exemplo, estou bastante determinado a tentar permanecer armado apenas com meu pincel e minha caneta. Com gritos altos, Gauguin exigiu de mim, em sua última carta, ‘suas máscaras e luvas de esgrima’, escondidas no pequeno quarto da minha casinha amarela. Vou me apressar em enviar essas coisas infantis pelo correio, esperando que ele nunca use coisas mais sérias. Ele é fisicamente mais forte do que nós, então suas paixões também devem ser muito mais fortes. Além disso, ele é pai, tem esposa e filhos na Dinamarca, e ao mesmo tempo quer ir para o outro lado do mundo, para a Martinica. É horrível essa inversão de desejos e necessidades incompatíveis.” - Vincent Van Gogh para Theo Van Gogh, escrita em 17 de Janeiro de 1889 em Arles.11

Na mesma carta, Vincent alerta Theo para não confiar nas palavras de Gauguin:

“Eu, que o vi de muito, muito perto, acredito que ele era guiado pela imaginação — talvez pelo orgulho — mas, acima de tudo, bastante irresponsável. Isso não significa que eu recomende que você o escute em todas as circunstâncias. (…) E você, que deseja saber como as coisas aconteceram, já leu Tartarin na íntegra? Isso lhe ensinaria a reconhecer Gauguin muito bem. Recomendo seriamente que releia aquela passagem do livro de Daudet.” - Vincent Van Gogh para Theo Van Gogh, escrita em 17 de Janeiro de 1889 em Arles.11

Aqui, Van Gogh faz referência a Tartarin nos Alpes, de Alphonse Daudet, mais especificamente ao capítulo 13, “A Catástrofe”. Só consegui encontrar o livro em inglês, mas deixo o link aqui para quem quiser ler o livro inteiro. Em resumo: dois companheiros, Tartarin e Bompard, estão amarrados por uma corda durante uma escalada nos Alpes. Em um impasse, ambos acreditam que o outro está caindo e irá arrastá-los para o precipício. Em pânico, cada um corta o nó com a intenção de se salvar. Ambos sobrevivem, mas acreditam que o outro morreu. Sem o “outro lado” para negar a história, Bompard cria a sua versão para os outros (enquanto Tartarin ainda não havia retornado) de que ele fez o possível para salvar o amigo, o que era uma mentira.

“Talvez eu leve tudo isso a sério demais, e talvez esteja triste demais por causa disso. Será que Gauguin já leu Tartarin sur les Alpes? Será que ele se lembra do nó na corda redescoberto no alto dos Alpes depois da queda?” - Vincent Van Gogh para Theo Van Gogh, escrita em 17 de Janeiro de 1889 em Arles.11

Van Gogh havia iniciado a pintura La Berceuse (retrato de Madame Roulin) antes da véspera de Natal, mas retomou o trabalho após sua alta do hospital. Ao fazê-lo, adicionou à composição uma corda cortada, possivelmente uma referência direta à história de Tartarin e Bompard provando que o conto tem muito significado para Vincent.

La Berceuse. Óleo sobre tela. 1889; Art Institute of Chicago La Berceuse. Óleo sobre tela. 1889; Art Institute of Chicago

(Os autores, inclusive, escreveram um artigo inteiro apenas sobre a série La Berceuse, que você pode acessar aqui.)

Van Gogh foi liberado do hospital em janeiro de 1889. Ainda assim, continuava sofrendo intensamente com sua saúde mental. Pouco tempo depois, uma petição assinada por moradores de Arles solicitou que ele fosse expulso da cidade. A polícia acabou fechando a Casa Amarela, e Vincent retornou definitivamente ao hospital. Dois meses depois, decidiu se internar voluntariamente no asilo de Saint-Rémy.

Em 1890, mudou-se para Auvers-sur-Oise, ficando mais próximo do seu médico, Dr. Gachet e do irmão Theo. No entanto, dois meses depois, em 27 de Julho, Vincent atirou em si mesmo e morreu de complicações da infecção causada pelo tiro no dia 29 de Julho. Segundo Theo, as últimas palavras de Vincent foram: "A tristeza durará para sempre".

"La tristesse durera toujours"

(Existem, ainda hoje, teorias que questionam se sua morte ocorreu exatamente da forma como foi registrada ou se houve envolvimento de terceiros, alguns historiadores acreditam que o tiro partiu de um dos jovens que o perseguiam em Auvers-sur-Oise. Mas isso, talvez, fique para outro post.)

Foi um choque perceber como as palavras de Paul Gauguin transformaram o modo pelo qual olhamos para Van Gogh até hoje, sua versão virou senso comum e moldou completamente a forma que a cultura o lê e o representa, no final, a sua “loucura” passou por explicar tudo, até aquilo que ninguém viu.

Ainda assim, quando a insanidade não é usada como fermento do pintor, nós enxergamos um homem que manejava a culpa e a esperança e que insistia muito, desde seu nascimento, quando já era fadado ao peso de não ser aquilo que deveria ser. Pra concluir, eu que sou conhecida por ser sentimental demais, pra mim, a história do Vincent é, desde o início, uma história de fé e faço das palavras dele as minhas:

“Many people seem to think it foolish, even superstitious, to believe that the world could still change for the better. And it is true that in winter it is sometimes so bitingly cold that one is tempted to say, ‘What do I care if there is a summer; its warmth is no help to me now.’ Yes, evil often seems to surpass good. But then, in spite of us, and without our permission, there comes at last an end to the bitter frosts. One morning the wind turns, and there is a thaw. And so I must still have hope.”

(Esse post nasceu a partir das pesquisas e leituras de Hans Kaufmann e Rita Wildegans, a quem deixo meu sincero agradecimento. Sugiro fortemente que vocês acessem o site e os artigos linkados aqui para conhecer a fonte original e explorar o conteúdo com mais profundidade. Obviamente também agradeço o Van Gogh Museum e o Huygens Institute for Dutch History and Culture que disponibilizam todas as cartas do Van Gogh na íntegra, que também insisto profundamente que leiam e desejo muitíssimo visitá-los um dia!)

Referências:

  1. Van Gogh's Ear / The Pact of Silence. 18 Out. 2018 (https://vangoghsear.com/index.html)

  2. Vincent Van Gogh to Theo Van Gogh, 1 May 1888; Letter nr. 602 (https://vangoghletters.org/vg/letters/let602/letter.html#translation)

  3. Vincent Van Gogh to Theo Van Gogh, 25 October 1888; Letter nr. 712 (https://vangoghletters.org/vg/letters/let712/letter.html)

  4. Bernard’s letter of 1 January 1889 to Albert Aurier (https://vangoghletters.org/vg/letters/let728/letter.html)

  5. Cartas a Théo, 1997; 1 Edição. L&PM Pocket.

  6. GAUGUIN, Paul. Avant et Aprés, 1903. Disponível em: https://courtauld.ac.uk/gallery/the-collection/prints-and-drawings/discover-avant-et-apres/turn-the-pages-of-avant-et-apres-by-paul-gauguin/

  7. Vincent van Gogh and Félix Rey to Theo Van Gogh. Arles, 2 January 1889; Letter nr. 728 (https://vangoghletters.org/vg/letters/let728/letter.html)

  8. Brief Happiness: The correspondence of Theo Van Gogh and Jo Bonger. Carta 11. p. 77

  9. Vincent Van Gogh to Paul Gauguin. Arles, 21 January 1889; Letter nr. 739 (https://vangoghletters.org/vg/letters/let739/letter.html)

  10. Vincent Van Gogh to Theo van Gogh. Arles, 22 January 1889; Letter nr. 741 (https://vangoghletters.org/vg/letters/let741/letter.html)

  11. Vincent Van Gogh to Theo Van Gogh. Arles, 17 January 1889; Letter nr. 736 (https://vangoghletters.org/vg/letters/let736/letter.html#translation)